Manuel Cordeiro: "Se nos deixamos ir abaixo não conseguimos ajudar a outra pessoa"

21-05-2025

Manuel Cordeiro é marido de Maria Albano, que foi diagnosticada aos 33 anos com Esclerose Múltipla. Nos últimos 13 anos a vida do casal sofreu algumas alterações, nomeadamente, a maneira de abordar o parceiro e até uma simples ida às compras. Neste entrevista o cuidador explica como é viver com alguém com deficiência e as dificuldades que enfrentam em cujo.

A sua mulher foi diagnosticada muito jovem com Esclerose Múltipla, mas não foi logo afetada pela doença. Quando é a dificuldades motoras começaram?

Foi em 2016. A minha mulher foi diagnosticada em 20212 e passado quatro anos teve um surto em que metade do corpo ficou dormente e desde daí que afetou-lhe o andar. Começou por ser sensibilidade na perna direita e, atualmente, recorre a ajuda de uma muleta para se locomover e, obviamente, do meu braço para a aparar quando precisa.

Enquanto cuidador quais são os principais desafios que encontra quando vai às compras com a pessoa que cuida ?

As dificuldades muitas vezes têm haver a nível da mobilidade. Existe um cansaço derivado à doença, o que me leva a ter de andar de um lado para o outro a comprar os produtos que são precisos para casa. Apesar de estar sempre acompanhado da minha mulher, muitas vezes ela acaba por ficar sentada a descansar um bocado enquanto eu ando pelos corredores. A minha mulher tem um atestado de multiusos com 62% da capacidade e que pode utilizá-lo seja nos hipermercados ou nas filas para passar à frente. Muitas vezes acaba por não o fazer, procura um sítio para descansar e quem acaba por ficar só na fila do supermercado para fazer o pagamento e as compras sou eu. É complicado, nomeadamente, nos dias em que está mais gente ou os centros comerciais estão mais cheios.

Existem apoios nos supermercados que facilitam a vossa experiência? pode dar alguns exemplo?

Não, porque muitas vezes a minha mulher queixa-se da ausência de bancos pelos espaços comerciais. Antigamente, dentro do próprio supermercado existiam alguns apoios, agora, ou apoia-se em mim ou no carrinho das compras.

Uma dificuldades enfrentadas por Manuel é o tempo de espera nas filas.
Uma dificuldades enfrentadas por Manuel é o tempo de espera nas filas.

Já sentiu falta de sensibilidade por parte de funcionários durante as compras?

Quando ela começou a muleta como apoio, os funcionários começaram a tratá-la de forma diferente, porque só a presença daquele objeto parece que é vista de outra forma, porque quando não a utilizava não existia qualquer cuidado na abordagem, mesmo vendo que ela tinha dificuldades em andar.

Vocês e a sua esposa continuam a ter uma vida normal, apesar das dificuldades motoras, por exemplo continuam a ir a concertos. Que estratégias arranjou para melhorar a experiência dela?

Para uma pessoa que vive com um problema de saúde destes é uma vitória sempre que vai a um centro comercial, cinema ou teatro, porque não deixa de fazer as coisas. Nos concertos, acabamos muitas vezes por comprar bilhetes para sítios que fiquem mais próximos da porta de entrada para evitar as descidas de escadas e chegamos a ir a festivais o que fizemos foi parar, beber água e encontrar sítios para sentar, o que foi raro no festival que fomos, que era o Rock in Rio, antes de se ter mudado para o Parque Tejo.

Por fim, que conselhos daria a outros cuidadores que se encontram a passar pela mesma situação ?

Qualquer cuidador hoje devia ter acesso a um psicólogo, porque eles não servem só para a pessoa que tem um problema de saúde, mas também para com a pessoa que lida diariamente com uma pessoa que tem um problema. Os psicólogos ajudam muito porque nós não somos indiferentes, não somos nenhuns blocos de gelo nem nenhumas pedras. É impossível não ficar indiferente, há alturas em que ela desaba ou alturas em que ela chora e nós temos de ter a capacidade de muitas vezes tentar ajudar que a pessoa venha para cima novamente e que se anime. Nesta ótica todos nós precisamos de um apoio de alguém que também nos possa ajudar e dar algumas indicações, porque muitas vezes achamos que estamos a dar um bom conselho e às vezes não, a própria pessoa que está no outro lado tem uma interpretação muitas vezes diferente daquilo que nós achamos que seria correto para nós . Acima de tudo nós também estarmos bem psicologicamente é meio caminho andado para podermos ajudar outra pessoa, porque se nós deixarmos ir completamente abaixo não conseguimos ajudar que a outra pessoa. 

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