Daniela Reis: "existe um estigma muito grande à volta das pessoas com paralisia cerebral se fazerem ouvir e se imporem"
Daniela Reis tem 24 anos e vem do Porto. É ativista e é licenciada em Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Diagnosticada com Paralisia Cerebral nunca deixou de querer estudar e ajudar o próximo, nas redes sociais criou a página "Fora dos Padrões" onde conta a sua experiência com Paralisia Cerebral e mais recentemente no ano passado juntamente com alguns amigos criaram o projeto "Ensino Superior Mais Inclusivo" onde tentam ajudar estudantes universitários com deficiência.

Para quem ainda não a conhece, quem é a Diana Reis?
Alguém que encontrou muitas barreiras no acesso à educação, mais tarde, comecei a perceber que o acesso a outras áreas também não era facilitado, cultura e até desporto, e posteriormente no mercado de trabalho. Agora estou a fazer voluntariado pelo Corpo Europeu de Solidariedade, mas por exemplo, participei no programa Erasmus e tenho uma questão que é, eu sou sempre a única pessoa com deficiência em vários sítios, a única estudante de Erasmus no grupo em que participei. Sou a única voluntária com deficiência aqui na Bélgica, ainda ontem fizemos um encontro de voluntários, não eram todos os voluntários europeus que existem na Bélgica, mas eram bastantes, e eu era a única que tinha uma deficiência. Portanto, o facto de estar nos sítios obriga a que haja uma mudança e um pensamento muito mais em prol da inclusão e da acessibilidade porque é uma pessoa com deficiência, mas ao mesmo tempo é muito complicado porque continuamos a desbravar um bocadinho, e às vezes encontramos assim situações um bocadinho desagradáveis com as quais ninguém quer lidar com aquilo. Esta questão de ser ativista nasceu muito disso, de eu perceber que o facto, de primeiro ter paralisia cerebral, que é uma deficiência que ninguém gosta de dizer, existe um estigma muito grande à volta da minha deficiência e há uma dificuldade muito grande, das pessoas com paralisia cerebral se fazerem ouvir e se imporem um bocadinho.
Atualmente tem uma página nas redes sociais chamada "Fora dos Padrões" onde partilha a sua experiência. De onde surgiu a ideia de criar esta página?
Fiquei um ano sem poder ir às aulas entre o 9º e o 10º ano, houve ali um ano em que não consegui, porque fui operada duas vezes nesse ano a propósito da minha deficiência e a escola disse-me que não era possível adaptar as aulas. Conclusão, não tive aulas, portanto durante esse ano não tinha grande coisa para fazer e decidi criar um blogue. Comecei a escrever mais sobre assuntos da sociedade em geral e a interessar pelas questões de género e pelas questões de desigualdade. Depois, pouco a pouco, fui entrando neste mundo da deficiência, porque este projeto nasceu mais para mim do que para qualquer outra pessoa, criei este projeto para me começar a ver muito mais do que apenas a minha deficiência. A partir daí comecei a conhecer outras pessoas com deficiência, comecei a partilhar mais coisas e a dizer, afinal, não sou só eu.
Mais recentemente, criou, juntamente com alguns amigos o projeto "Ensino Superior Mais Inclusivo". Qual é a intenção principal deste projeto?
Este projeto nasceu de uma forma muito engraçada, porque três de nós participámos ao mesmo tempo na sexta edição da Escola de Verão da Representação da Comissão Europeia em Portugal, e aquele foi o primeiro ano em que havia participantes com deficiência e a questão da deficiência era um dos temas do painel. Portanto, houve ali naquele ano uma consciência de preocupação com as questões da inclusão e acessibilidade e houve um momento em que se começou a discutir os problemas na educação. E nós depois juntámo-nos e dizemos assim "Olha podíamos unir forças e tentar mudar aqui algumas coisas". A partir daqui começamos a fazer isso, hoje tentamos fazer esse apoio um bocadinho mais personalizado, com que tenha mais dificuldades porque sabemos que a informação está muito dispersa no que toca às questões do acesso aos alunos com deficiência. Quando me candidatei à faculdade não sabia que existia contingente para pessoas com deficiência, e isto é uma informação que toda a gente tem de saber. Tentamos trabalhar juntos das associações de estudantes, das universidades e até de organismos públicos, como o Instituto Nacional de Reabilitação, para que haja aqui algumas mudanças mesmo que a nível do regime jurídico das instituições do ensino superior. Tivemos recentemente a aprovação do estatuto do estudante com necessidades específicas, portanto, estamos aqui num caminho de evolução e nós participamos muito nesta mudança.
"As pessoas acham que colocando uma rampa está resolvido, mas se puserem uma rampa com o declínio do Monte Evereste não vou subir"
Indo agora para a área do comércio, qual a sua maior dificuldade na hora de ir às compras?
Para mim é a falta de acessibilidade arquitetónica das lojas. Uma vez fiz uma ação com a Associação Salvador no Porto e nós basicamente o que fizemos foi percorrer uma rua do Porto e nós ver quais eram as lojas que efetivamente eram acessíveis e em algumas até tentamos entrar para ver se conseguíamos entrar, porque havia pessoas em cadeira de rodas. Nós estávamos a tentar fazer essa ação e um bocadinho de sensibilização e havia lojas que nos diziam que não tinham solução. Para mim, esse é o maior problema, tendo em conta também que a minha deficiência é muito mais motora, eu tenho limitação ao nível da marcha, equilíbrio e tónicos musculares. As pessoas acham que colocando uma rampa está resolvido, mas se puserem uma rampa com o declínio do Monte Evereste não vou subir, não basta colocar uma rampa, a rampa tem que estar acessível.
Sente que os supermercados em Portugal estão aptos para satisfazer todo o seu público?
Muito mais aptos do que as lojas em geral, assim de rua, acho que sim. Temos as caixas prioritárias, depois acho que falha talvez será ao nível da formação das equipas. Parece-me que podiam estar mais bem preparados para ajudarem as pessoas. Até porque, para uma pessoa com deficiência é muito, não quero dizer humilhante, mas é muito complicado estar a querer impor a sua presença, por exemplo, numa fila de supermercado, e haver aqui uma certa capacidade de compreender e de ver aquela situação e de, portanto tomar quase a frente e dizer "Bora, vamos respeitar". Acho que as equipas podem estar mais bem preparadas para ajudar e para receber pessoas com deficiência para trabalhar. Acho que em todos os lugares onde há uma pessoa com deficiência para estas questões, as equipas são mais bem preparadas porque estão mais alerta para estas situações.
Uma das principais ideias que passa nas redes sociais é que é possível ter uma vida normal e prosseguir os estudos apesar de se ter alguma deficiência, mais ainda, diz várias vezes que "O futuro é inclusivo". Que mensagem gostava de deixar às grandes superfícies para melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência?
Gostava que as grandes superfícies e o comércio em geral participassem desta mudança, porque é muito difícil tornar o futuro inclusivo sem postos de trabalho inclusivos, sem locais inclusivos e sem acessibilidade em geral. Há um trabalho contínuo a ser feito. Sei que, por exemplo, o Pingo Doce, tem uma espécie de programa para incluir funcionários com deficiência. Não podemos só dizer mal, temos de dar bons exemplos. Participar ativamente e não fazer uma coisa que me deixa muito mal, que é quando uma grande superfície, uma loja ou marca, utiliza por exemplo o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, mas depois não aplica esses valores de autonomia, inclusão e de acessibilidade na própria empresa. Rever as políticas das empresas e da acessibilidade. Continuo a acreditar que o futuro será inclusivo, mas ele não vai ser inclusivo por obra mágica há um trabalho conjunto a ser feito.